222016nov

Saúde mental – Jornal O Tempo

Estimulação craniana melhora depressão em parte de autistas

Psiquiatra de BH antecipa resultado de trabalho com 12 pacientes

Estimulação craniana melhora depressão

Estimulação craniana melhora depressão

São Paulo. Diante da ausência de resultados satisfatórios com medicação para tratar e controlar a depressão em jovens portadores do espectro autista de alto funcionamento, a psiquiatra de Belo Horizonte Mercêdes Alves começou, há cerca de um ano, a tratar 12 pacientes com idades entre 6 e 22 anos com a estimulação magnética transcraniana (EMT). Os pacientes apresentaram melhora significativa em seus comportamentos, e o estudo será publicado em breve em revista científica.

Saiba mais sobre EMT!

O autismo de alto funcionamento é aquele em que os pacientes conseguem levar vida relativamente independente, considerada uma forma mais branda de autismo. Os sinais mais comuns incluem problemas com habilidades sociais, comportamentos excêntricos ou repetitivos, práticas e rituais incomuns, dificuldades de comunicação, problemas de coordenação. Essas pessoas podem ser excepcionalmente inteligentes e talentosas.

Nesses quadros, porém, a depressão é frequente. “Os sintomas depressivos são muito comuns no autismo, porque não é uma depressão que responda bem aos medicamentos. Eles têm uma reação paradoxal à grande maioria dos medicamentos, não suportam. Um dos meus pacientes não toma nenhum medicamento, não tolera nenhum, mas responde maravilhosamente bem à inibição cortical, que é a estimulação feita com frequência baixinha de 1 hertz apenas no hemisfério direito do cérebro”, explica Mercêdes.

A estimulação transcraniana é uma terapia não invasiva, segura, praticamente indolor e que em nada se assemelha aos eletrochoques. São utilizadas ondas eletromagnéticas para estimular partes do cérebro. O paciente tem que usar uma touca na cabeça, na qual são demarcados os lugares onde a máquina deve atuar. Em seguida, um potente campo magnético, que passa por uma bobina, é ativado e gera uma corrente elétrica que irá atravessar o crânio e atuar na região desejada.

Esse tipo de estimulação utilizada pela médica não é a considerada padrão. “O que é padrão é a estimulação excitatória no hemisfério esquerdo com frequência alta, acima de 5, 15 e 20 hertz”, afirma. De acordo com a médica, foi interessante observar como a estimulação excitatória na região córtex pré frontal dorso lateral esquerdo não teve absolutamente nenhum resultado clínico, mas a resposta com a estimulação inibitória do lado direito, no córtex pré frontal dorso lateral direito, foi muito satisfatória. “No primeiro paciente que recebi, fiz 25 aplicações, porque o nosso protocolo é de 20 a 30 aplicações diárias e subsequentes, e não tivemos nenhum resultado. Mas já na primeira aplicação com inibição do lado direito (do cérebro) já teve resultado. O paciente mesmo depõe sobre o seu bem-estar. Chega de uma forma e sai de outra”, explica.

A manutenção do tratamento deve ser feita com intervalos variáveis, de acordo com cada paciente. “Tenho um paciente que é investigador, e ele tem uma capacidade enorme de perceber finamente as reações. Então, ele que vem me ensinando sobre os resultados que consegue perceber, é muito interessante”, diz. Nos pacientes com autismo de baixo funcionamento, porém, não existem indícios de melhoras com a EMT.

Minientrevista

Vânia Novelli
Coordenadora da Comissão de Defesa Profissional da Associação Brasileira de Psiquiatria

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Qual a importância da estimulação magnética transcraniana hoje na psiquiatria?

Ela estaria no meio do caminho entre um tratamento de psicoterapia e medicamentoso e eletroconvulsoterapia. Quando você vai vendo o nível de complicação e contraindicação em alguns casos, vai optar por uma possibilidade que seria mais indicada por conta daquilo que a gente não deseja de efeito colateral do remédio e outras coisas.

Por que o acesso ainda é difícil a esse tipo de tratamento?

Em psiquiatria a gente tem a regulação do Conselho Federal de Medicina, que já estabeleceu a estimulação como um tratamento eficaz para a depressão. O que acontece é que temos feito trabalho contínuo tentando incluir esse procedimento no rol de procedimentos da saúde suplementar. Buscamos esse caminho para universalizar a possibilidade de acesso. As dificuldades aparecem porque tem a questão do equipamento, do tratamento em si, e das aplicações. Mas se você começa a colocar dentro da saúde suplementar, e posteriormente no SUS, já passa a não ser difícil.

A autorização do CFM também é limitada?

Temos a autorização para o tratamento superficial. Para a estimulação transcraniana profunda estamos pedindo um encontro com uma câmara técnica do CFM para falar tratar a questão, porque há outras indicações, mas ainda estamos pleiteando esse encontro e avaliação do CFM. Não é um tratamento para você fazer como primeira opção, é um tratamento para quando as outras opções, medicamentos e ate as psicoterapias tornam-se ou impossíveis ou parcialmente ineficazes, e aí temos mais esse recurso. O que nós estamos buscando é isso, abrir mais essa possibilidade para os nossos pacientes.

Confira a reportagem completa no Jornal O tempo!