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Estimulação transcraniana para depressão (Revista Espaço Aberto)

O Hospital Universitário busca voluntários para pesquisa para tratamento clínico de depressão

Por Daniela Bernardi (Espaço Aberto, junho 2011)

Estou depressivo.” Não, talvez você não esteja. Tristeza, insatisfação no trabalho, desilusão amorosa ou cansaço extremo, se isolados, não são sintomas que definem sozinhos uma depressão. “Ela não é apenas tristeza; é uma doença que precisa de tratamento”, ressalta o psiquiatra André Russowky Brunoni, um dos pesquisadores do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital Universitário (HU) que estão avaliando o uso da Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC) para tratamento da doença.

O Transtorno Depressivo Maior causa, principalmente, humor deprimido e falta de prazer. Porém, esses sintomas não podem apenas estar presentes em uma parte da vida da pessoa, pois a doença, quando presente, afeta intensamente toda a rotina do indivíduo: estudos, trabalho, relacionamentos. “Se o paciente só se sente desestimulado no trabalho, não quer dizer que ele esteja depressivo; mas que há algo de errado no trabalho dele”, explica Brunoni.

A depressão é mais comum em pessoas entre 25 e 44 anos, atingindo cerca de 20% da população mundial em algum momento da vida. De acordo com o periódico médico Lancet, as doenças mentais são responsáveis pela maior parte de anos de vida perdidos no Brasil 19%. Essa metodologia calcula tanto a mortalidade causada pelas doenças como a incapacidade provocada por elas para trabalhar e realizar tarefas do dia a dia.

Os outros sintomas da depressão são: sensação de vazio, melancolia, pensamento de morte, falta de energia, ansiedade, dores no corpo, dificuldade de raciocínio, sono excessivo e aumento do apetite. Caso esses sintomas não apresentem melhora em duas semanas, é preciso procurar um profissional da saúde.

Geralmente, a doença é consequência de acontecimentos traumáticos, mas também de estresse ou de causas genéticas, que vulnerabilizam as pessoas. “Pode ocorrer o polimorfismo dos genes BDNF e 5HT-TLPR, que transporta a serotonina, neurotransmissor responsável pela eficiência da transmissão sináptica, deixando o processo hipoativo”, esclarece o médico, que enfatiza que a questão genética facilita o surgimento da doença, mas não é responsável por ela sozinha.

O método tradicional de se tratar a doença são os antidepressivos, que corrigem o desequilíbrio químico cerebral. Porém, os efeitos colaterais do medicamento são muito intensos, o que faz com que metade dos pacientes abandone o tratamento. “Ele causa aumento de peso e disfunções sexuais”, conta o psiquiatra. O custo é relativamente barato quando usado medicamento simples, entre R$ 60 e R$ 70 mensais. Mas, caso não haja melhora, é preciso usar antidepressivos que chegam a custar R$ 500 por mês. Segundo Brunoni, 50% dos pacientes voltam a ter depressão depois do tratamento. O tratamento não é invasivo nem doloroso. Também tem a vantagem de não ter efeitos colaterais. Por conta disso, muitos médicos procuram outra forma de tratamento: não invasivo e sem efeitos colaterais.

Pesquisadores do Centro de Pesquisas Clínicas do Hospital Universitário (HU) estão avaliando o uso da Estimulação Transcraniana por Corrente Contínua (ETCC). “É um método já conhecido e experimentado em alguns países, porém, das cinco pesquisas já feitas, duas o julgaram falho”, conta Brunoni. Local de ação dos antidepressivos onde há a recaptura da serotonina. A pesquisa ainda está em andamento, por isso não é possível ter acesso a resultados prévios. A diferença entre esta pesquisa e as demais já realizadas é que ela conta com um tamanho de amostra maior – o que quantifica a magnitude da eficácia – e abrange quatro quadros de testes: ETCC, ETCC com setralina, apenas a setralina e a estimulação placebo (não-existente). “

Em 2008, comparamos os efeitos da ETCC aplicada em córtex pré-frontal dorsolateral esquerdo com estimulação placebo. Encontramos redução de 40% nos valores da escala Hamilton de depressão”, conta o professor Paulo Sérgio Boggio, que coordenou estudo sobre o ETCC no Brasil em 2008. Mas o que é a setralina? É um antidepressivo da classe dos inibidores seletivos que realizam a recaptura da serotonina. Segundo Brunoni, em uma pessoa normal, a quantidade de serotonina passada de um neurônio para o outro é suficiente para que possa haver a recaptura de parte dela pelo neurônio pré-sináptico. Porém, em uma pessoa depressiva, esta quantidade é bem menor, por isso é essencial que não haja a recaptura da pouca serotonina presente. A ETCC ainda não é usada em tratamento clínico, porque precisa ter dois estudos de fase 3, ou seja, mais avançados. A pesquisa realizada pelo HU é uma das primeiras de fase 3 a terem a chance de ser publicada. Caso isto aconteça, o preço do tratamento alternativo aos antidepressivos diminuirá. Hoje, é usada a Estimulação Magnética Transcraniana (EMT) que, através da estimulação magnética, ativa o circuito neural na área responsável pelo processo afetivo-emocional (o córtex pré-frontal dorsolateral) que está hipoativa. Porém, uma máquina desta, além de ocupar um espaço de um armário chega a custar US$ 100 mil; já a máquina da ETCC é pequena e não passa de R$ 1 mil. Aparelho de estimulação transcraniana.

A pesquisa já conta com 98 voluntários, mas ainda faltam 32 para completar o quadro. Os interessados devem ter entre 18 e 65 anos, ser portadores de depressão sintomática (ou seja, no mínimo depressão moderada ou grave) e podem estar usando antidepressivos atualmente, mas não setralina. Para se candidatar, é preciso fazer cadastro no site www.etcc.com.br ou mandar um e-mail para pesquisacientificahu@gmail.com. Para consulta ambulatorial, o Hospital Universitário atende toda a comunidade USP. Moradores da região também conseguem marcar consultas. Confira Matéria no portal do Hospital Universitário HU-USP: http://www2.hu.usp.br/estimulacao-transcraniana-para-depressao-revista-espaco-aberto/