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Magnetismo que cura

estimulacao magnetica ipanDra. Marina concedeu entrevista à Folha sobre estimulação magnética transcraniana (EMT). A entrevista é importante para esclarecer a população sobre esta nova técnica no arsenal terapêutico.

A Dra. Marina falou sobre o uso da estimulação magnética nas alucinações auditivas de pacientes com esquizofrenia, tema de seu mestrado na USP. Ela explicou que, nesses pacientes, a estimulação magnética é usada para inibir zonas em que o metabolismo cerebral é muito intenso. Ela também mencionou dois casos onde, após duas semanas, os pacientes atingiram melhoras excelentes e se livraram das vozes por três meses.

Veja os depoimentos de pacientes tratados com EMTr!

Confiram abaixo a entrevista completa:

Magnetismo que cura

FLÁVIA MANTOVANI
TATIANA DINIZ
DA REPORTAGEM LOCAL

Imagine um aparelho que emite campos magnéticos 40 mil vezes maiores do que o campo magnético da Terra sendo direcionado para o seu crânio. Os pulsos produzidos por esse dispositivo penetram cerca de 3 cm em uma pequena área do cérebro.

Após uma série de aplicações, são capazes de gerar mudanças nos neurônios, ativando-os ou inibindo-os dependendo dos objetivos -que vão de tratar uma depressão a melhorar a criatividade ou a resistência.
Parece ficção científica, mas o procedimento acima já é realidade para alguns brasileiros. Chamado de estimulação magnética transcraniana repetitiva (EMTr), o método já é aprovado para o tratamento de depressão em países como Canadá, Austrália e Israel.

No dia 26 de janeiro, a FDA (Food and Drug Administration), agência reguladora dos EUA, avaliará os resultados de estudos para decidir se libera o tratamento no país.

Por aqui, a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) regulamentou o uso do aparelho de EMTr em março de 2006. Há dois meses, após seis anos de pesquisa com o método, o Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da USP (Universidade de São Paulo) decidiu liberá-lo para uso clínico em depressão.
O próximo passo será pedir a inclusão do tratamento no SUS e nos planos de saúde -atualmente, quem quer receber os pulsos magnéticos fora de protocolos de pesquisa precisa desembolsar R$ 300 por sessão.

Primórdios
Apesar da aplicação terapêutica recente, as origens da estimulação magnética remetem ao século 19. Já em 1896, o francês Jacques-Arsène D’Arsonval havia testado os efeitos do magnetismo sobre as emoções.
Por volta de 1940, os estímulos magnéticos eram pesquisados na fisiologia animal. Na década de 80, surgiram aparelhos semelhantes aos atuais -só eram usados, no entanto, para diagnósticos neurológicos.
Foi só em meados da década de 90 que o método passou a ser usado para tratar doenças.

Uma das vantagens da EMTr é a quase ausência de efeitos colaterais. Até agora, uma leve dor de cabeça que passa depois da sessão tem sido o único sintoma relatado -mesmo assim, só por alguns pacientes.
Isso tornaria a técnica útil para grávidas e lactantes, para as quais é mais delicado receitar medicamentos.
Diferentemente da ECT (eletroconvulsoterapia, também conhecida como eletrochoque), outra técnica não medicamentosa usada para transtornos mentais, as aplicações de EMTr são indolores.

“A ECT não exige cortes, mas demanda anestesia e o uso de remédios anticonvulsivos. Já a estimulação magnética não exige nada disso e tem mostrado a mesma eficácia”, diz o psiquiatra Marco Antonio Marcolin, coordenador do grupo de EMTr do HC.


[…] Por se tratar de um novo campo de pesquisa, ainda não há diretrizes que padronizem como o tratamento deve ser feito para cada doença (duração da sessão, intensidade e intervalo entre os pulsos


Os estudos com depressão -feitos principalmente com pacientes que não reagem a outros tratamentos- são os mais numerosos e os que vêm conseguindo melhores resultados. “Há pouca informação consistente sobre indicações terapêuticas em outras áreas”, afirmou à Folha um dos pioneiros na área, o psiquiatra americano Mark George, diretor do laboratório de estimulação cerebral da Universidade Médica da Carolina do Sul.

Mas já há trabalhos no Brasil e no mundo que avaliam os efeitos da terapia sobre a esquizofrenia, o TOC (transtorno obsessivo-compulsivo) e a epilepsia, entre outras doenças.

Na USP, acaba de ser concluído um estudo sobre o uso da EMTr em um tipo de dor crônica. Os resultados ainda não podem ser divulgados, mas Marcolin adianta que a eficácia foi boa. Ele vai pesquisar agora a eficácia do método para autismo, dislexia e transtorno de déficit de atenção.

Outro estudo do mesmo grupo vem acompanhando 20 pacientes de TOC resistentes a medicamentos. Uma parte foi submetida a sessões reais de EMTr; a outra, a simulações.

Segundo o autor da pesquisa, o psiquiatra Carlos Gustavo Mansur, os dados não são conclusivos. “Mas, na prática, observamos melhoras evidentes em alguns pacientes.”

A coleta de dados deve ser encerrada em meados de 2008.

“Esperamos obter respostas seguras sobre a possibilidade de usar a técnica para TOC. Se as constatações forem positivas, creio que levará de cinco a dez anos para a EMTr chegar ao uso clínico”, diz Mansur.

Padronização
Por se tratar de um novo campo de pesquisa, as perguntas ainda são muitas. Não há, por exemplo, diretrizes que padronizem como o tratamento deve ser feito para cada doença -duração da sessão, intensidade e intervalo entre os pulsos etc. Em geral, para depressão, são feitas aplicações diárias durante um mês -alguns pacientes melhoram antes.

“Os protocolos variam muito. É preciso criar padrões. Também não se sabe quanto tempo dura o efeito das sessões. Os relatos vão de semanas a vários meses”, diz o neurologista e neurofisiologista Joaquim Brasil-Neto, da UnB (Universidade de Brasília).

No laboratório de neurociências e comportamento do Instituto Central de Ciências da UnB, a técnica é aplicada principalmente para depressão.

Mas já foi feito um trabalho com epilepsia que constatou que o método só funciona bem em um tipo específico, no qual o foco epiléptico fica no córtex (a camada mais externa do cérebro). “Quando o problema está profundamente situado no cérebro, não conseguimos atingir”, explica Brasil-Neto.
A Universidade Federal do Rio Grande do Sul também já pesquisa a EMTr, principalmente para alucinações auditivas -comuns em pacientes com esquizofrenia.

“Os resultados são muito interessantes. Não só os sintomas diminuem como a qualidade de vida melhora. Pacientes que não ficavam mais do que 15 minutos com a família já conseguem passar todo um fim de semana”, conta o psiquiatra Paulo Belmonte de Abreu, coordenador do Programa de Esquizofrenia e Demências do HC de Porto Alegre.

A psiquiatra Marina Odebrecht Rosa explica que, nesses pacientes, a EMTr é usada para inibir zonas em que o metabolismo cerebral é muito intenso. Ela também investigou, na USP, o uso do método em 11 portadores de esquizofrenia grave que não reagiam a remédios. Seis receberam a estimulação real e cinco foram submetidos a sessões simuladas. “Em duas semanas, dois pacientes atingiram melhoras excelentes e se livraram das vozes por três meses. Mas houve também casos que não apresentaram melhora”, pondera Marina.

Criatividade
Não é só para aliviar doenças que a EMTr tem despertado interesse. Já há quem estude seu uso em pessoas saudáveis, para estimular áreas do cérebro ligadas a capacidades cognitivas.

Na Austrália, por exemplo, o Centre for the Mind, ligado à Universidade de Sidney e à Universidade Nacional da Austrália, tem usado a estimulação magnética para tentar melhorar temporariamente a criatividade das pessoas.

Nos Estados Unidos, o Departamento de Defesa encomendou um estudo com um dispositivo portátil de EMTr que pudesse potencializar os reflexos de soldados. “A técnica melhorou a performance de homens que não tinham dormido nas últimas 36 horas. Mas o efeito foi menor do que o de uma xícara de café”, diz Mark George, que conduziu o teste.

“Acontece com toda técnica”, afirma Joaquim Brasil-Neto. “Abre-se um leque enorme e pensa-se em usar para uma série de coisas. Com o tempo, só os usos mais interessantes são incorporados.”

No próprio HC da USP já foi constatado, em uma pesquisa, a melhora de um tipo de memória em estudantes saudáveis. “Temos que ir com calma. Ainda faltam estudos. E, mesmo que funcione, há uma questão ética, pois isso pode ser usado com objetivos que não são adequados”, alerta Marcolin.

Folha de S. Paulo!