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O alcoolismo merece menção especial por sua prevalência e por suas consequências, consistindo um verdadeiro problema de saúde pública e um causador de distúrbio social e familiar. Crimes e acidentes (especialmente de trânsito) estão não poucas vezes associados á intoxicação por álcool.

O alcoolismo é caracterizado por necessidades emocionais e/ou físicas. Além disso, causa tolerância, necessitando de doses maiores para produzir os mesmos efeitos. Em outros casos, produz a síndrome da retirada ou abstinência. Em geral, a progressão é a seguinte: começa com o uso, vai para o abuso, podendo chegar na dependência.

O Álcool é um depressor do sistema nervoso e tem vários mecanismos de ação propostos, incluindo ação no complexo de receptor GABA, bem como em receptores opióides. Sua absorção ocorre em 90% no estômago e o resto no intestino delgado. Sua metabolização é principalmente hepática (90%) sendo o restante eliminado pelos pulmões e rins.

A enzima que metaboliza o álcool no fígado é a álcool desidrogenase que o transforma em aldeído e depois em ácido acético, que é eliminado. A absorção é rápida e a meia vida está ao redor de 8 horas. O uso prolongado e repetido aumenta a capacidade enzimática e é um dos mecanismos de tolerância.

A intoxicação por álcool se manifesta inicialmente por uma desinibição, que é seguida de comportamento irritado ou até agressivo. Sintomas comuns são fala pastosa, ataxia, descoordenação motora, redução da atenção e concentração. De acordo com o grau de intoxicação poderá chegar até o coma e a morte.

A Abstinência ou síndrome de retirada, se manifesta com efeitos de hiperestimulação autonômica. Tremores (finos inicialmente até grosseiros em quadros mais graves) são típicos. Fotofobia, agitação psicomotora, taquicardia, hipertensão e alucinações são eventos comuns. Alucinações visuais são frequentes (liliputianas por exemplo, ou sensações epidérmicas).

A intoxicação não tem tratamento específico, mas apenas geral, incluindo hidratação. Reposição de glicose e complexo vitamínico estão indicados em casos onde há desnutrição crônica.

Outras alterações de comportamento associadas ao alcoolismo incluem a alucinose a síndrome de Wernicke e a síndrome de Korsakoff.

A alucinose consiste em alucinações (auditivas em geral) quando ocorre redução ou abstinência do uso. Tipicamente surgem com um sensório intacto (diferente da síndrome de abstinência, na qual há confusão mental) e são aliviadas com doses baixas de antipsicóticos.

A síndrome de Wernicke é causada pela falta de tiamina e se manifesta com a clássica tríade de confusão mental, ataxia e nistagmo (com oftalmoplegia). Trata-se de quadro grave que pode ser revertido com a administração de tiamina (geralmente também com Mg, cofator para o metabolismo).

A síndrome de Wernicke pode ser precipitada pela injeção endovenosa de glicose (esta utiliza tiamina para o seu metabolismo). Por isso deve-se administrar tiamina associada.

A síndrome de Korsakoff é uma evolução de S.Wernicke não tratada. Consiste em quadro demencial, principalmente com déficits de memória. Tipicamente, estes são ilhas de amnésia, algumas vezes preenchidas com confabulações. O prognóstico é reservado.

Dr. Moacyr Alexandro Rosa, diretor técnico, CRM: 69816 – SP | RQE: 47876. Dra. Marina Odebrecht Rosa, CRM: 107447 – SP | RQE: 47901. IPAN – Instituto de Psiquiatria Avançada e Neuromodulação.

Referências:

American Psychiatric Association (APA). Diagnostic and statistical manual of mental disorders: DSM-V. 5th ed. APPI – American Psychiatric Association / John Scott and Company; 2013.

Benjamin J. Sadock, Virginia A. Sadock and Pedro Ruiz. Kaplan and Sadock’s Comprehensive Textbook of Psychiatry. LWW; Ed.: Tenth, 2 Vol, 2017.