52015mar

Esperança na Esquizofrenia, Vozes de Comando e uso da EMT 

Recentemente, o CFM (Conselho Federal de Medicina), aprovou o uso da Estimulação Magnética Transcraniana repetitiva (EMTr) para depressão e esquizofrenia. Abaixo, descrevemos um caso que obteve sucesso com o uso da EMTr para esquizofrenia.

Saiba mais sobre EMTr AQUI!

Pedro* tem 27 anos e convive com o diagnóstico de esquizofrenia paranóide (DSM-IV), apresentando delírios de referência, quadro impulsivo-agressivo e vozes de comando, aquelas que dizem ao paciente que deve executar ações consideradas improváveis em nosso “mundo real”, como sair andando sem destino ou colocar-se a si em risco de vida ou graves acidentes.

O livro “Os demônios de Henry”, escrito por personagens reais, ilustra bem como essas vozes podem se comportar. Henry, filho de Patrick, é esquizofrênico e escuta vozes de comando que colocam sua vida em risco diversas vezes, além de trazer transtornos com a polícia. Henry acreditava que deveria ficar nu em locais públicos e chegou a se colocar em um parapeito de viaduto, além de nadar sem roupas na água congelante de um rio dos Estados Unidos.

Os diversos tratamentos de Pedro, nosso paciente, nunca se mostraram totalmente eficazes, ele mostrou-se refratário a vários antipsicóticos típicos e não obteve melhora com risperidona, olanzapina, quetiapina e ziprasidona, medicamentos normalmente utilizados para a esquizofrenia. Após 18 meses do uso de clozapina, 600 mg ao dia, Pedro apresentou uma melhora parcial, mas não era suficiente para que ele e sua família pudessem ter uma vida mais tranquila.

Apesar da melhora do quadro delirante, ele continuava com alucinações auditivas de comando e quadro impulsivo-agressivo. Foi então indicada a eletroconvulsoterapia (ECT) em associação à clozapina, essa associação trouxe uma melhora da agressividade. Foram aplicadas 20 sessões de ECT em uma série, seguido do tratamento de manutenção (semanal, por seis semanas). Mas, mesmo assim, as alucinações auditivas de comando persistiam.

 
Considerando que a resposta ao tratamento foi apenas parcial, a ECT foi suspensa. Pedro apresentou piora dos sintomas (intensificação das alucinações auditivas e da agressividade) logo após a parada do tratamento com ECT. Em três semanas foi tentado EMTr**. A clozapina foi mantida diariamente e seguindo a mesma dose. Foram realizadas 10 sessões sequenciais de EMTr, com 16 minutos de duração, ao longo de duas semanas e intervalos aos finais de semana.

Ao final do tratamento, Pedro remitiu completamente de seus sintomas, ele não ouvia mais vozes, apresentava-se calmo e sem agressividade. O quadro permaneceu estável por cinco semanas. Um alívio para Pedro e seus familiares, um período de esperança e renovação de forças.

A EMTr mostrou ser um tratamento eficaz para casos de alucinações auditivas, seguro e sem efeitos colaterais. O uso da técnica, junto à clozapina, pareceu ser benéfico e um possível efeito de sinergismo pode ter ocorrido. O Pedro é apenas um, de muitos outros casos, que podem se beneficiar com a EMTr combinada ou não com medicamentos.

*Pedro é nome fictício de um paciente real do IPAN, atendido pela Dra. Marina O. Rosa.
**A EMTr de baixa frequência (1 Hz) aplicada no córtex têmporo-parietal esquerdo tem sido usada com sucesso para aliviar alucinações auditivas. O objetivo é modular a área de Wernicke, região auditiva que parece estar hiperativa durante o comportamento alucinatório.